
Minha fragilidade é imensa, mas posso lhe dizer que ela anda muito longe de ser uma característica constante. É como se minha alma se regerasse com facilidade. E eu devo todo esse poder às experiências que pude viver ao longo desses anos. Foram através delas que eu fui mantendo o equilíbrio e o controle das minhas reações e sentimentos no estilo de vida que me permito viver hoje.
Desde sempre me permiti viver da forma mais intensa, embora não pareça agora. Sempre me vi na necessidade de extrair até última gota do que havia por sentir, mesmo se aquilo fosse me deixar muito mal. Me permiti ser ferido e encarar as coisas de frente. Pude sentir o peso que é viver e assim aprender da maneira mais difícil a não perder o controle.
Houve um tempo que não havia mais feridas para cutucar e sentir um pouco mais, havia apenas cicatrizes para um suave delineio. E foram através delas que eu pude perceber o meu amadurecimento como pessoa.
Não me permiti conhecer meus limites simplesmente porque imaginava chegar a essa minha forma de encarar a vida. Pelo contrário, eu achava que aquilo nunca mudaria, sabe? Eu só sabia cutucar onde não devia, pois era ali que se concentravam todos os meus sentimentos, coisa que a partir de outro lugar eu não conseguia tal efeito. Parecia que havia me tornado neutro para o mundo lá fora. Já não mais o sentia, pois era no meu interno que se concentrava o meu verdadeiro mundo.
Levei um tempo para vivê-lo internamente e assim poder me permitir conhecer novamente esse mundo onde todos se encontram. Já não é mais o mesmo que me assustava ou me despertava surpresas, tampouco aquele que me oferecia feridas numa espontaneidade tão inocente.
A desvantagem de ter me permitido sentir tudo até a última gota é que hoje em dia minha sensibilidade se resume numa parede de cicatrizes de textura bem espessa. Logo, tudo soa tão superficial, que pouco penetra na pele da alma e lá cava. E quando cava, eu me sinto tão frágil, mas é nessa hora que eu paro de mentir pra mim mesmo: "Isso aí anda tão longe de um sentimento real, não vale a pena cutucar isso". Daí levo alguns dias pra perceber que nunca houve nenhuma ferida ali de verdade, apenas cicatrizes e uma vontade de sentir as coisas como eu sentia antigamente.
