Te poupando
Eu te poupei dos meus lamentos intermináveis. Eu me poupei de me sentir tão sozinho, pois você nunca tinha muito a dizer diante deles, por vezes nunca disse nada. Então, eu me poupei de ficar me martirizando ao vento, falando de como era ruim perder uma parte que significava naquele momento tudo o que eu representava naquela vida que eu sempre quis pra mim. Eu te poupei de saber dos meus choros quase intermináveis. Eu me poupei de chorar por alguém que deveria, naquele momento, olhar com outros olhos, como simples passe de mágica... E eu não consegui. Então fiz melhor, eu me poupei de encarar uma realidade, que estava mais do que óbvia desde o primeiro contato, mas que você não havia poupado e me fez acreditar, que um conto de fadas se tornaria real. E hoje eu vejo que só fugi de tudo isso, quando eu vi que não adiantava me maltratar por um mundo que só existia num passado, que se esconde em tudo que você é agora. Alguém que eu evito ver, evito pensar, evito falar, porque simplesmente nada daquilo está mais presente. E se seu coração soubesse e sentisse tudo isso como o meu sentiu, tu teria se mantido o mais distante possível, já que a tua realidade não cabia, tampouco se misturava com a realidade que meu coração viveu, fazendo invadir de um vazio tão grande dentro dele, quando mostrou o real por trás de uma máscara de sonho. Eu poupei meu coração, o mais prejudicado nisso, de todo esse teu mundo real. Eu te poupei do estrago que eu poderia ter sido se permanecesse de alguma forma ao teu lado. Eu me poupei de definhar "ao lado" de alguém que em nenhum dia da sua vida a deixou de viver por minha causa. Eu te poupei de compreender o que eu sentia, já que é sempre tão difícil sentir quando as feridas não estão na gente. E no fundo, estou sempre te poupando mais do que eu me poupo, pois é horrível quando o sofrimento alheio é por nossa culpa.
Sobre sentir.

Minha fragilidade é imensa, mas posso lhe dizer que ela anda muito longe de ser uma característica constante. É como se minha alma se regerasse com facilidade. E eu devo todo esse poder às experiências que pude viver ao longo desses anos. Foram através delas que eu fui mantendo o equilíbrio e o controle das minhas reações e sentimentos no estilo de vida que me permito viver hoje.
Desde sempre me permiti viver da forma mais intensa, embora não pareça agora. Sempre me vi na necessidade de extrair até última gota do que havia por sentir, mesmo se aquilo fosse me deixar muito mal. Me permiti ser ferido e encarar as coisas de frente. Pude sentir o peso que é viver e assim aprender da maneira mais difícil a não perder o controle.
Houve um tempo que não havia mais feridas para cutucar e sentir um pouco mais, havia apenas cicatrizes para um suave delineio. E foram através delas que eu pude perceber o meu amadurecimento como pessoa.
Não me permiti conhecer meus limites simplesmente porque imaginava chegar a essa minha forma de encarar a vida. Pelo contrário, eu achava que aquilo nunca mudaria, sabe? Eu só sabia cutucar onde não devia, pois era ali que se concentravam todos os meus sentimentos, coisa que a partir de outro lugar eu não conseguia tal efeito. Parecia que havia me tornado neutro para o mundo lá fora. Já não mais o sentia, pois era no meu interno que se concentrava o meu verdadeiro mundo.
Levei um tempo para vivê-lo internamente e assim poder me permitir conhecer novamente esse mundo onde todos se encontram. Já não é mais o mesmo que me assustava ou me despertava surpresas, tampouco aquele que me oferecia feridas numa espontaneidade tão inocente.
A desvantagem de ter me permitido sentir tudo até a última gota é que hoje em dia minha sensibilidade se resume numa parede de cicatrizes de textura bem espessa. Logo, tudo soa tão superficial, que pouco penetra na pele da alma e lá cava. E quando cava, eu me sinto tão frágil, mas é nessa hora que eu paro de mentir pra mim mesmo: "Isso aí anda tão longe de um sentimento real, não vale a pena cutucar isso". Daí levo alguns dias pra perceber que nunca houve nenhuma ferida ali de verdade, apenas cicatrizes e uma vontade de sentir as coisas como eu sentia antigamente.
É tão ruim
É tão ruim quando ninguém se importa, quando o que você mais quer é que alguém se importe. Quando o que você mais quer é dar pouso a dor no aconchego de um abraço verdadeiro, acompanhado de uma preocupação gratuita e real. E sabe, é tão ruim ficar sem esse abraço. É tão ruim imaginar o que poderia me deixar melhor e não conseguir nem enxergar aonde e nem como conseguir isso. É tão ruim seguir vivendo com tudo indo bem, mas não acontecendo nada, nada que te faça sentir realmente a vida. É tão ruim tentar mudar isso e sempre voltar pra essas linhas, pra esse pensamento. É tão ruim tirar esperança de onde não tem e ficar mais ainda no débito por nunca funcionar "esperar" que aconteça. É tão ruim sentir as coisas através de um coração como o meu, quando se torna bem mais fácil e simples, viver sem um.
Par Ideal:
Uma pessoa do tipo "city and colour", ou seja, uma pessoa que eu ame escutar infinitamente, uma pessoa que eu não consiga abusar mesmo querendo, uma pessoa que eu consiga enxergar e sentir tamanha pureza e sinceridade em suas palavras. Uma pessoa que esteja do lado do meu travesseiro "sussurrando" versos no quase absoluto silêncio antes de dormir. Uma pessoa que eu veja e sinta a mesma coisa como se fosse na primeira vez, mesmo depois de tantas e inúmeras vezes. Outras pessoas comparadas a esta só são apenas outras pessoas. Nessa se encontra uma imensidão de sensações boas e verdade, e não precisa sair apalpando-a ou revirando-a de cabeça pra baixo para tal. Não precisa estar para poder sentir, e sim, sentir para poder estar. Uma pessoa, quem sabe, talvez inexistente, mas que só por ser idealizada a partir de tantas verdades, não venha a ser inexistente assim.
Expectativas?
Talvez meu maior defeito seja enxergar as coisas muito além do que elas possam ser ou são. Chega até ser engraçado, pois eu meio que vivo desistindo de coisas que nunca foram reais de fato, quando, da aparência daquilo que eu vejo, raramente, trago pra realidade algo semelhante ou superior. Metaforizando, meu maior defeito é ter dentro de mim uma fábrica de expectativas pra tudo o que vejo e um enorme cesto de lixo pra todas elas.
A pessoas de hoje em dia
As pessoas de hoje em dia não merecem nenhum tipo de sentimento que venha tão de fundo. A primeira pessoa do singular, pra elas, também é a segunda, a terceira, a quarta, enfim. Todos estão preocupados com suas vidinhas e em observar como o mundo gira em torno delas. O próximo tornou-se apenas um detalhe, que se descarta quando dele não pode mais tirar nenhum proveito. Isso é tão lamentável.
Antes eu encarava as pessoas como complemento de mim, mas hoje eu não consigo mais me doar para a superficialidade dessas relações. Nesses últimos anos eu vi que estava mais me perdendo do que me ganhando. Parei com isso! Decidi olhar pra mim, rebocar os buracos dos lugares que ficaram na alma com pedaços realmente MEUS. E acredite, foi aí que encontrei uma estabilidade incrível pra mim, um equilíbrio que me fez e faz tão bem. É claro que essa estabilidade tem lá seus pontos fracos. O principal deles é que não consigo mais dar a devida importância ao que acontece a minha volta. Não interajo como deveria. Me sinto sempre em falta com as pessoas, seja numa conversa ou simplesmente estando apenas em presença.
Vivo intercalando entre dois mundos, agora por exemplo, não me sinto em nenhum lugar palpável. Isso me afasta muito das pessoas, e é algo que se tornou tão natural pra mim, que eu soou muito falso quando tento demonstrar qualquer tipo de sentimento bom como uma pessoa 'normal'. Não que eu tenha me tornado o tipo de pessoa "contemporânea" que só pensa no seu próprio bem e que se foda o resto. Pelo contrário, sempre que vejo uma brecha de oportunidade pra dividir qualquer tipo de cumplicidade e afeto, eu me arrisco. Eu sempre dou a oportunidade de desmontar alguns pedaços meus para encaixar nas outras pessoas quando vejo que elas estão dispostas a fazerem o mesmo. Mas sabe, nunca tive sorte com isso.
Complemento meu é apenas meu mesmo, as pessoas provam que não há encaixe alheio que perdure e me mude sem ser no quesito de 'superar'. A pessoa que sou hoje é mais resultado de recomposição. E é isso que me faz valorizar essa estabilidade que encontrei pra mim e aumentar essa minha barreira com as pessoas.
Talvez seja mais fácil viver de sentimentos superficiais (sem tanto apego, perto de pessoas que têm algo a mais a te oferecer) do que viver assim (distante, nas tentativas frustrantes de querer se encontrar nos outros e acabar se perdendo).
Não sei a que ponto queria chegar falando tudo isso. Talvez que me entendam quando não conseguir reagir diante uma piada, risada ou conversa. Que compreendam o meu abraço que nunca é "abraçado por inteiro" e aquele sorriso sem graça por não saber sorrir sem desprender-se da alma é o único que tenho a oferecer.
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