Tempo.


Tenho uma concepção de amor tão diferente da que tinha anos atrás. Perfumes não duram pra sempre, mas a lembrança do cheiro permanece, o buraco na alma com o tempo some. O único problema é que não existe buraco nenhum a ser preenchido, não existem feridas a serem saradas. Tomei o livre arbítrio de me medicar todos esses anos e sem querer eliminei a naturalidade do sentir, do guardar o que é bom. Meu sistema me auto-protege mesmo sem eu querer. Enfie uma flecha no meu peito, não sentirei dor ao removê-la e não morrerei de amor, mesmo se eu quisesse morrer dele. Eu enxergo o passado, vejo meu coração bater. Enxergo o presente, vejo um coração robótico bater lentamente, a bateria está fraca. Eu enxergo o futuro, a bateria acaba. Ela não é recarregavel, modelo único. Convidarás a morar dentro do seu coração após o meu óbito? Duas almas num coração só, vai muito além dessa minha concepção. Nuvens de esperança provindas de um delírio desconhecido.

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