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Carta de quem ficou e que agora vai embora.

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Congele-se esta noite e fique do meu lado mesmo que morra de frio, mesmo que tal ação não se iguale a um terço dos sacrifícios feitos da minha parte por você. Apenas o faça, este é o meu último pedido. Creio que uma noite só não lhe arrancará a vida, pois desde o dia que fostes embora até o presente momento, pareço viver uma eternidade, decompondo-me aos poucos, lançando gás carbônico para fora e inalando lembranças que me sufocam e que não me matam logo de uma vez.
Recordo-me dos seus olhos e da forma mágica que eles abraçaram os meus na primeira vez que te encontrei. Duas esferas que pareciam guardar a imensidão de um sentimento jamais sentido que estava por nascer naquele momento. Teu olhar era o único espelho que refletia a pessoa que eu era de verdade. Como era bom me encontrar em ti, sentir meu coração palpitando forte quando de longe te avistava. Como era bom sentir o sangue correndo em minhas veias ao ver-te quando se aproximava... Como era bom! Mas agora minhas artérias entupidas por coágulos lentamente o deixa circular.
O relógio pareceu ter parado. Você já não estava mais presente em lugar algum. Naquele momento, meu olhar encontrava-se pior do que estava antes de conhecer-te. Ele já refletia o começo do meu óbito, o imenso vazio cavado pelo brilho dos teus olhos depois de tantas competições de luminosidade com os meus, que brilhavam pela enorme felicidade ocasionada por te ter. Talvez, tais batalhas oculares tenham me deixado cego ou quase cego, só sei que enxergava apenas você. Tal complexidade só complicou, deixando-te tão mais distante de onde você se encontrava. Aliás, eu nem tinha idéia de onde poderia te encontrar. Eu só enxergava apenas uma paisagem limpa, sem nenhuma sombra diante aquele sol. Em minhas narinas, tua essência se despedia com a ajuda do vento. Depois disso, dei-me como perdido e nunca mais te vi pra dizer que me encontrei.
Bateria fraca. Os ponteiros que marcam as horas estão arrastando-se tão devagar, e nessa mesma sincronia meu coração também se encontra, se esgota. Creio que já está na hora de dissolver-me junto com a névoa que corre lá fora já que essa pequena força aplicada por essa caneta sobre este papel também deseja partir...
Estou retratando minha cegueira nas linhas dessa carta. Cegueira que uma hora dessas já deve ter levado consigo o meu sangue, esvaziado meu intestino - me deixado aos ossos – e destruído todo o brilho da felicidade refletida em seus olhos que um dia encantaram os meus. Olhos que agora tentam me ver embaixo desse mármore.

Adeus.