Mantendo distância e livrando-me de sonhos



Parti pra nunca mais voltar. Retirei do teu penhor o meu sorriso, dando-te em troca todos os sonhos que me fizestes sonhar. Realize-os com outro alguém. Antes disso, saia do teatro e mostre ser quem você verdadeiramente é. Nada. Inferior a isto, agora, é o que você é pra mim.

Meu sorriso já não era o mesmo, depois que o resgatei. Mesmo assim, me dirigi ao sul. Peguei condução à caminho do nada. Sentei numa poltrona distante das que estavam ocupadas, retribuindo olhares com aquele sorriso que não combinava nada com meus olhos tão cansados. Aos poucos, aquela expressão de que estava ‘tudo bem’ despedia-se com o bater suave de minhas pálpebras, empurrando-me para frente, num convite para eu adormecer. Mas não! Eu não podia. No escuro do meu pensamento, eu podia te encontrar. E, mais uma vez, logo despertei para manter-me distante de você. Eu sabia que tantos quilômetros percorridos não valiam de nada, mas sentia que em qualquer distância eu encontrava forças pra poder te esquecer.

Fiz uso da minha mania de analisar pessoas, imaginar vidas por trás de olhos e assim, tentar compor uma vida nova pra mim. Antes isso, até era legal, mas naquele momento havia deixado de ser. Em aparências alheias eu conseguia ver-te. E a música, que tocava de fundo, fazia com que você se aproximasse. Oh, tormento! Coloquei meus fones de ouvido, parei com aquela mania besta e com aquele mesmo sorriso, fingia curtir uma música eletrônica.

Um moço velho adentrou na condução, observando todo o ambiente, enquanto o ônibus saía do lugar, percorrendo vários e vários metros. Sorrindo, lá estava eu, quando aqueles olhos passaram a me analisar. Contei seus passos até ele parar. Sentou-se numa poltrona que estava vazia, bem do meu lado. O vento então, disse:

- Oi, filho.

- Oi? – Disse eu, enquanto tirava os fones do ouvido.

- Teu rosto está tão vazio.

- O que queres dizer com isso, senhor?

- Esse seu sorriso não tem valor algum, notava-o antes mesmo de embarcar. Porque não trocas ele comigo por um par de olhos cheios d'água? Ele tem o mesmo valor. - O velho disse.

- Realmente esse sorriso já perdeu a validade. Mas, por que queres trocar, se ele é tão insignificante? E quem disse que eu quero? – Dizia eu, sorrindo vagamente.

- Vejo que ao usá-lo, ele o fere e lágrimas acumulam-se demasiadamente dentro de você. Aproveite o turvo dessa condução e troque comigo pelo o que eu te ofereci.

Encarei o velho que segurou minha mão, esgotando-me as forças para manter minha cabeça erguida. Vieram lágrimas e mais lágrimas. Na composição delas, tinha um pouco de você. E esse pouco muito era, quando tentava livrar-me de ti logo de uma vez. Naquele momento, saía do banheiro, uma moça gorda com aparência suada. Ela havia notado que o velho ainda não havia dormido e lançou-lhe um sorriso sem graça. O velho então retribuiu, usando aquele sorriso que comigo trocou. Logo, disse baixinho:

- Aquela moça devia estar com dor de barriga, hein, filho.

- Haha, tadinha dela, moço. – Disse eu, enquanto sorria, negando com a cabeça.

- Agora sim, seu rosto vazio já não mais está.

Meus olhos secaram-se diante da tamanha gratidão refletida em meus dentes, o que tornava meu sorriso maior. Então, aquele senhor eu abracei e depois disse:

- Nem sei como agradecer. Sinto-me distante de verdade, livre!

- Não precisa agradecer, filho. Agora vá lavar seu rosto, sim?

- Ok. Estou precisando mesmo. Já volto!

Quando voltei, a poltrona se encontrava vazia e ele não estava mais lá.


Foi aí, que eu despertei e agradeci a Deus por ter mantido você longe dos meus sonhos aquela noite.

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