Um coração só seu.




Essas palavras carregam vestígios de sonhos que restaram em minha imaginação.
Estive por todo o meu viver a criar castelos enormes - daqueles de contos de fadas -, perdido em um mundo apenas meu. Tijolo por tijolo, montando um reino encantado.
Recordo de como era o céu: azul, irradiado de nuvens brancas, pintado e desenhado por sentimentos ingênuos. Hoje, esse mundo não existe mais. O vento forte, a chuva, terríveis tempestades acionadas humanamente atormentavam-no e aquele castelo veio a desmoronar.
Lamentável. Uma alma foi soterrada diversas vezes. Mas, eu ainda te vejo como se fosse a primeira vez que peguei a pá e comecei a criar o meu refúgio e assim encontrar-te ao avistar aquele mundo lá do alto, sentando naquela janela, no balanço de pés ao vento.
Nenhuma tempestade até hoje foi capaz de destruir-te, porque você se tornou o meu sonho inquebrável ou alguém real desconhecido guardado intactamente em minha cabeça. E no abraço de cílios na calada da noite, olhos fechados saciam-se do meu sono. Tu estás lá no meu escuro. Eu te encontro, eu te ‘vejo’, continua inteiro, sem uma face específica, sem uma definição.
Menti a mim mesmo quando disse ver, que via você num corpo de carne qualquer, habitando nesse mundo medíocre, em busca de um castelo que nunca fiz. Enganando-me ao pensar, que havia conhecido você diversas vezes, em corpos diferentes, rostos diferentes e corações que diziam saber amar.
Ventanias, furacões, tragédias internas. Demolição de castelo. Não era você. Talvez, apenas uma miragem sua refletida em olhos estranhos. Minha carência mais uma vez havia criado uma realidade falsa. Tolo fui quando acreditei nas próprias mentiras que eu mesmo inventei e invento.
A realidade é que você continua lá, no turvo da minha alma. Talvez esperando que o alarme toque. O alarme da minha morte. Pode ser idiota, mas eu preciso de ti; quando o que é meu se torna alheio; quando o meu coração depois de preenchido, esvazia-se; quando alguma decepção vem à tona; quando uma tempestade não literalmente, me derruba.
Como partir grãos? O que restou de um coração já não se quebra mais. Vestígios ficaram em meu peito, mas não sou capaz desses te oferecer. E com um coração inteiro te escrevo essas palavras. Um coração de verdade, de sua propriedade. Um coração só seu.

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