Atravessou a alma.


Suas palavras pareciam facas, das mais pontiagudas e amoladas. Ditas com tanta facilidade, lançadas com tamanha velocidade em minha alma. Como simples palavras puderam me dilacerar tanto? Quanto de dor vai ser preciso para levar-me em óbito? Eu senti tanta. Eu ainda sinto. Ela coagula por todas as partes da minha alma, fazendo-me encolher corpo. Ela continua beliscando, ferindo, arranhando. Não viu que não havia mais espaço para novas cicatrizes? Agora, minha alma parece uma ferida só. Aliás, ainda posso chamar isso de alma?

Dureza para as lágrimas, esse era o meu automático. E agora? Acertou-me os olhos com suas facas também? Porque as lágrimas escorrem tão facilmente, chegando a latejar meus olhos. Soluços acompanham essas esferas que de tão coradas já não sabem o que derramar. Eu disse que eu era capaz de não sentir mais dor, que estava imune a ela - porque eu me sentia protegido perto de você. Mas você me apunhalou pelas costas, rasgou cicatrizes e atravessou a alma.

Doeu, e ainda dói. Meus joelhos se batem. Minha cabeça lateja. Minhas mãos não sabem se enxugam os olhos ou se continuam transformando essa dor em palavras, porque ela, aqui dentro, ainda lateja tanto.

O paraíso que de ti a mim foi dado cobriu-se em chamas. Já está às cinzas. Porém, por dentro, eu continuo queimando. Eu caio, eu caio, eu caio. Eu perco o equilíbrio. É. Fugir dele, pra mim, está sendo tão difícil.

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